PCV3: QUANDO A DETECÇÃO NÃO BASTA - ENTENDENDO A REAL IMPORTÂNCIA CLÍNICA DO CIRCOVIRUS SUÍNO 3
- Julia Montes

- há 1 dia
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O Circovirus Suíno 3 (PCV3) é um agente relativamente recente na suinocultura, identificado pela primeira vez em 2015, quase 20 anos após a descoberta do PCV2. Desde então, tem sido detectado em granjas de diferentes países e em praticamente todas as fases de produção.
No Brasil, em diversos estados, tipos de amostras e fases produtivas, a detecção do PCV3 já é uma realidade, inclusive em animais clinicamente saudáveis. Sendo considerado um patógeno ubíquo, essa ampla detecção do PCV3 levanta um importante questionamento: a simples detecção do vírus indica, necessariamente, doença?
Para responder essa pergunta, este texto foi baseado em um artigo de revisão publicado em 2025 por Cobos et al. (https://doi.org/10.1177/03009858251347522), que reuniu e analisou as principais evidências disponíveis sobre PCV3. A revisão compila dados de diferentes países e sistemas de produção, abordando tanto quadros reprodutivos quanto manifestações pós-natais associadas ao PCV3.
Com base nessas evidências, os dados científicos disponíveis indicam que NÃO. A presença do vírus por PCR, de forma isolada, não é suficiente para caracterizar um quadro clínico associado. Por este motivo, torna-se fundamental compreender o conceito de “PCV3-associated disease” (PCV3-AD), ou doença associada ao PCV3, que considera a integração entre sinais clínicos, lesões histopatológicas e detecção viral em tecidos e lesões.
O termo PCV3-AD engloba um conjunto de manifestações clínicas e lesões patológicas que têm sido consistentemente associadas ao PCV3, tanto em casos reprodutivos quanto em suínos pós-natais. Duas principais PCV3-AD são discutidas na literatura, sendo:
Doença reprodutiva associada ao PCV3 (PCV3-RD): abortos, fetos mumificados (frequentemente de diferentes idades gestacionais na mesma leitegada), natimortos, leitões fracos ao nascimento;
Doença sistêmica associada ao PCV3 (PCV3-SD): anorexia, perda de peso, atraso de crescimento e baixo desempenho zootécnico.
Em muitos casos, as alterações macroscópicas são discretas ou inexistentes, o que torna a avaliação histopatológica fundamental (Tabela 1). Os achados histológicos mais característicos da PCV3-AD são periarterite e arterite linfoplasmocitária ou linfo-histiocítica, observadas principalmente no plexo mesentérico, coração, rins, intestino e fígado. Além disso, devido à alta especificidade, tais lesões podem ser consideradas como patognomônicas para PCV3-AD, como sugerido por Cobos et al., (2025).
Tabela 1. Lesões histológicas associadas à PCV3-AD (+ leve, ++ moderada, +++ severa) e sinais clínicos relacionados.
Condição clínico-patológica | Periarterite | Miocardite | Outras lesões inflamatórias | Sinais clínicos |
PCV3-RD | + a +++ | +++ | + a +++ | Abortos, natimortos e fetos mumificados, leitões fracos ao nascimento |
PCV3-SD | +++ | + | + a +++ | Emagrecimento, anorexia, perda de peso |
PCV3-RD (doença reprodutiva associada ao PCV3); PCV3-SD (doença sistêmica associada ao PCV3). Adaptado de COBOS et al., (2025).
Diante desse cenário, fica evidente que a interpretação correta da infecção por PCV3 depende da integração entre clínica, patologia e diagnóstico laboratorial. Assim, surge uma pergunta central na rotina de campo:
POR QUE PCR POSITIVO NÃO SIGNIFICA, NECESSARIAMENTE, DOENÇA?
O PCV3 pode ser detectado em tecidos, sangue e secreções de animais saudáveis;
A prevalência de infecção subclínica é muito maior do que a prevalência de doença;
Não existe, até o momento, um valor de carga viral por PCR capaz de diferenciar com segurança infecção subclínica de PCV3-AD.
POR ESTE MOTIVO, O DIAGNÓSTICO DE PCV3-AD EXIGE TRÊS PILARES:
1. Sinais clínicos compatíveis;
Lesões histopatológicas características;
Detecção de PCV3 dentro das lesões por técnicas in situ (ISH ou IHC).
O QUE O PCV3 MUDA NA PRÁTICA?
PCR positivo para PCV3 não confirma doença;
Histopatologia é indispensável na investigação de casos suspeitos;
Amostrar tecidos corretos (plexo mesentérico, coração e rim) aumenta a eficiência no diagnóstico;
Falhas reprodutivas sem causa definida devem incluir PCV3 na investigação;
Baixo desempenho crônico pode ter componente subclínico associado ao PCV3;
Não há vacina específica — prevenção depende de manejo, biosseguridade e diagnóstico correto.
CONCLUSÃO
O PCV3 deve ser encarado como um agente potencialmente patogênico, mas cujo papel clínico só pode ser estabelecido quando há associação entre sinais clínicos, lesões compatíveis e detecção do vírus dentro dessas lesões. Ampliar o olhar além do PCR e fortalecer a integração entre clínica e patologia são passos essenciais para compreender o real impacto do PCV3 na suinocultura moderna.



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