ROTAVÍRUS C EM LEITÕES: UM AGENTE EM ASCENSÃO NA DIARREIA NEONATAL
- Julia Montes
- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Por Julia Helena Montes, Gerente Técnica - Unidade De Suínos

A diarreia neonatal continua sendo um dos principais desafios sanitários na suinocultura, impactando diretamente a mortalidade, o ganho de peso e a uniformidade dos lotes. Entre os agentes virais envolvidos, os rotavírus são amplamente conhecidos, especialmente o Rotavírus do grupo A (RVA). No entanto, evidências recentes mostram que o Rotavírus do grupo C (RVC) pode ter um papel ainda mais relevante do que se imaginava. Atualmente, no Brasil, tem-se observado um aumento na incidência de casos de rotavirose em leitões, com maior frequência de positividade para o Rotavírus do grupo C (RVC), muitas vezes associado a resultados negativos para o Rotavírus do grupo A (RVA). Esse cenário sugere uma possível mudança no perfil epidemiológico das rotaviroses suínas e reforça a importância de incluir o RVC nos protocolos diagnósticos de diarreia neonatal. Um estudo canadense publicado em 2025 na revista Veterinary Microbiology, intitulado “A matched case-control study of porcine group A and C rotaviruses in a swine farrowing production system”, trouxe dados robustos sobre a prevalência e a importância clínica do RVC em granjas comerciais. O estudo caso-controle foi conduzido em um sistema de produção composto por dezenove unidades produtoras de leitões durante episódios de diarreia em leitões lactentes. Foram coletadas amostras de leitões com diarreia, leitões saudáveis (controle), matrizes e do ambiente da maternidade. As amostras foram analisadas por RT-PCR para detecção de RVA e RVC, além de exames histopatológicos e caracterização genética dos vírus. O RVC foi detectado em 100% das granjas avaliadas durante episódios de diarreia. Na avaliação lote a lote, o RVC apresentou associação estatisticamente significativa com a ocorrência de diarreia, sendo que leitões de lotes positivos para RVC apresentaram 7,1 vezes mais chance de desenvolver diarreia (OR = 7,1; p = 0,02). Já o RVA não apresentou associação significativa com diarreia nesse estudo, apesar de sua alta prevalência em leitões (45,4%). Possivelmente relacionado ao protocolo vacinal ao qual as fêmeas eram submetidas, contendo RVA, e da consequente proteção passiva conferida aos leitões. Na avaliação realizada em matrizes lactantes, apenas 4% das porcas foram positivas para RVC. Em contraste, 88,2% foram positivas para RVA, o que demonstra uma baixa eliminação fecal de RVC pelas matrizes e sugere uma possível baixa imunidade colostral específica contra esse vírus. O RVC também foi detectado no ambiente da maternidade, sendo encontrado em baias, portas, escamoteadores, ventiladores, carrinhos e painéis móveis, totalizando 32,4% das amostras ambientais positivas. Além disso, as sequências virais detectadas no ambiente eram geneticamente idênticas às dos leitões da mesma sala, reforçando o papel do ambiente como fonte de infecção e reinfecção dentro da maternidade. Os achados desse estudo reforçam que o Rotavírus do grupo C (RVC) deve ser reconhecido como um importante agente etiológico da diarreia neonatal em leitões. Sua alta prevalência em granjas com surtos, a forte associação estatística com diarreia em nível de lote e sua ampla detecção no ambiente da maternidade indicam que o RVC desempenha um papel central na dinâmica da rotavirose suína. Além disso, a baixa detecção do vírus em matrizes lactantes e a ausência de vacinas comerciais específicas contra o RVC sugerem que a imunidade passiva conferida pelo colostro pode ser insuficiente para proteger os leitões contra esse agente. Diante desse cenário, torna-se essencial ampliar o foco diagnóstico além do RVA e incorporar o RVC de forma rotineira na investigação de surtos de diarreia neonatal em granjas comerciais. FICA A DICA: O QUE O RVC MUDA NA PRÁTICA?
1. PCR negativo para RVA não encerra o diagnóstico
Em surtos de diarreia neonatal, inclua o Rotavírus C na rotina diagnóstica para evitar subdiagnóstico da causa viral.
2. Pense por sala, não apenas por leitão
O risco de diarreia por RVC está mais relacionado ao lote/sala de maternidade do que ao animal individual. Ou seja, amostragens populacionais, como pool de fezes, funcionam muito bem para este agente.
3. O ambiente é parte do problema — e da solução
Baias, escamoteadores, portas, carrinhos e painéis móveis podem atuar como reservatórios e fontes de reinfecção. O ambiente é um fator de risco, por isso, limpeza e desinfecção não são apenas detalhe operacional, são estratégia sanitária.
4. Vacinar contra RVA não protege contra RVC Surtos podem ocorrer mesmo em granjas vacinadas, já que não há vacina específica para RVC.
5. Colostro pode não estar cobrindo tudo
A baixa detecção de RVC em matrizes sugere possível deficiência de anticorpos específicos contra esse vírus. Dessa forma, o colostro pode apresentar baixa imunidade passiva para este agente, resultando em pouca ou nenhuma proteção aos leitões.
Área técnica Unidade de Suínos
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