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A Complexa Relação de Escherichia coli com a Suinocultura: Comensalismo e Patogenicidade

  • Foto do escritor: Karina Sonalio
    Karina Sonalio
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Escherichia (E.) coli é uma bactéria ubíqua no ambiente intestinal de suínos, onde muitas de suas cepas atuam como comensais, contribuindo para a manutenção da saúde digestiva. Contudo, a diversidade genética intrínseca dessa espécie permite que outras cepas adquiram um perfil patogênico, tornando-se agentes etiológicos primários de doenças de grande impacto na suinocultura. Dentre as enfermidades mais relevantes, destacam-se as síndromes diarreicas em diferentes fases de vida dos leitões (colibacilose neonatal e pós-desmame; Figuras 1 e 2, respectivamente) e a Doença do Edema (Figura 3), que representam desafios significativos para a produtividade e o bem-estar animal em sistemas de produção intensiva (Luppi & Martelli, 2025). A distinção entre uma E. coli comensal e uma patogênica reside fundamentalmente em seu material genético, ou na identificação do perfil de virulência do agente (Luppi & Martelli, 2025).


Genes de virulência: a assinatura molecular da patogenicidade


A capacidade de determinadas cepas de E. coli em causar doença é definida pela presença e expressão de genes de virulência específicos. Esses genes codificam fatores essenciais para a interação patógeno-hospedeiro, tais como adesinas (e.g., fímbrias F4, F18) que permitem a colonização do epitélio intestinal, e as toxinas (e.g., enterotoxinas STa, STb, LT; toxina Shiga Stx2e) que induzem alterações fisiológicas e lesões teciduais responsáveis pelos sinais clínicos observados. A detecção e caracterização desses genes de virulência, amplamente facilitadas por técnicas de biologia molecular como a PCR, são cruciais para a compreensão da epidemiologia das colibaciloses suínas, para o diagnóstico diferencial preciso e para o desenvolvimento de estratégias de controle e prevenção mais eficazes, incluindo a seleção de antígenos para vacinas (Paiva et al., 2025; Sukálic et al., 2026, Luppi & Martelli, 2025), especialmente para vacinas autógenas.


Com o avanço da ciência e das técnicas de diagnóstico, a compreensão sobre a patogenicidade de E. coli tem se aprofundado. Recentemente, um estudo abrangente realizado por De Conti et al. (2026) nos trouxe novas e valiosas perspectivas. Por meio de uma revisão sistemática e meta-análise, o artigo avaliou 31 estudos feitos em 22 países entre 1998 e 2024, e investigou a prevalência de 18 fatores de virulência de E. coli em suínos com e sem sinais clínicos de doença entérica.


O trabalho de De Conti et al. (2026) mostrou que sete fatores de virulência apareceram com mais frequência em suínos com sinais clínicos (F18, STb, Stx1, Stx2, F4, AIDA e EAST1). Houve alta heterogeneidade entre os estudos, mostrando grande variação nos padrões de detecção. Alguns fatores tradicionalmente testados, como F5 (K99), F6 (987P) e Stx2e, não mostraram diferença entre suínos doentes e não doentes.


Além dos dados publicados por De Conti et al. (2026), um estudo recente publicado por Sukalic et al. (2026) nos mostra dados similares na Croácia. Neste estudo, os autores avaliaram macroscopicamente os animais e coletaram material biológico para isolamento bacteriano e PCR de 55 leitões com diarreia. O estudo resultou em 58 cepas de E. coli, que foram avaliadas para 15 genes de virulência. Os resultados impressionam, pois mostram que 98,18% dos animais foram positivos para o isolamento de E. coli, e 84,48% desses isolados carregavam pelo menos um fator de virulência, corroborando dados internos recentes do INATA. Além disso, os genes mais prevalentes foram:

  • F4: 55,2%

  • LT: 48,3%

  • STa: 50%

  • STb: 63,8%

  • Stx2e: 1,7%


Portanto, com base nos dados encontrados, os autores concluíram que a detecção de genes de virulência em cepas de E. coli permite antecipar a gravidade da doença e orientar intervenções (Sukalic et al., 2026).


Ainda nesse contexto, dados internos da INATA® mostram que nos últimos anos, 73,4% dos isolados de E. coli de suínos apresentaram positividade para pelo menos um dos genes de virulência testados. Além disso, 46,6% dos isolados foram positivos para a toxina STb, 46,2% foram positivos para STa, 32,6% positivos para F18 e 10,8% para a toxina STx2e. Ainda, vale ressaltar que tais proporções são semelhantes aos dados publicados recentemente por Paiva et al. (2025), que apontam uma maior proporção de detecção de F18 (69,87%) em comparação à F4 (26,19%), F5 e F6. Além disso, os autores reportam altas taxas de deteção da toxina STb, chegando a 93,33% dos isolados de E. coli nos Estados Unidos.


Em termos simples, o que diferencia uma E. coli comensal de uma patogênica é o “pacote” de genes de virulência (virótipo) que ela carrega — e isso muda de granja para granja, e ao longo do tempo. Nos nossos dados internos mais recentes, quase 50% dos isolados apresentaram positividade para STb e STa, enquanto outros genes aparecem em menores proporções, como é o caso de F18, Stx2e, LT; um retrato que conversa diretamente com o que a literatura recente vem mostrando. Em outras palavras: não existe “receita de prateleira” que funcione para todos os rebanhos. O caminho mais sólido é começar com um diagnóstico direcionado que identifique as adesinas (fímbrias) e toxinas realmente presentes no seu plantel e, a partir daí, transformar esse retrato em proteção direcionada — por exemplo, com vacinas autógenas produzidas com cepas do próprio rebanho e selecionadas com base nos genes de maior relevância local (como F4, F18, STa, STb, LT e Stx2e). Essa abordagem, que a INATA coloca em prática ao integrar laboratório, epidemiologia e formulação sob medida, tende a reduzir a frequência e a gravidade das diarreias (neonatal e pós-desmame) e da Doença do Edema, estabilizar indicadores produtivos e ainda contribuir para o uso racional de antimicrobianos.



Intestino delgado de suíno com conteúdo amarelado e parede translúcida, lesão associada à Escherichia coli em suínos (colibacilose neonatal).
Figura 1: Intestino delgado distendido com conteúdo amarelado, parede intestinal fina, pálida e translúcida em suíno de maternidade. Lesão macroscópica comum em animais acometidos por E. coli produtoras da toxina LT, Sta, STb, associada à Colibacilose neonatal em suínos. Foto cortesia do M.V. Billy Noronha – CTC INATA®.
Alças intestinais e cólon distendidos por gás e líquido em suíno, lesão associada à Escherichia coli em suínos (colibacilose pós-desmame).
Figura 2: Alças intestinais delgadas e cólon marcadamente distendidos por gás/líquido em suíno de creche. Lesão macroscópica comum em animais acometidos por E. coli produtoras da toxina LT, Sta, STb, associada à Colibacilose Pós-desmame em suínos. Foto cortesia do M.V. Thiago Teixeira – CTC INATA®.
Edema de mesocólon em suíno, lesão associada à Escherichia coli em suínos (doença do edema).
Figura 3: Edema de mesocólon em suíno em fase de creche. Lesão macroscópica comum em animais acometidos por E. coli produtoras da toxina STx2e, associada à Doença do edema em suínos. Foto cortesia do M.V. Matheus Lourenço – CTC INATA®.























Referências:

De Conti, Elisa et al. “Molecular detection of Escherichia coli virulence factors in swine isolates: A systematic review and meta-analysis.” Veterinary microbiology vol. 315 (2026): 110922. doi:10.1016/j.vetmic.2026.110922

Luppi A, Maratelli P. Escherichia. In: ZIMMERMAN, J. J. et al. Diseases of Swine. 12. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2025.

Paiva, R.C., Burrough, E.R., Macedo, N. et al. Description of a contemporary pathogenic Escherichia coli isolated from pigs with post-weaning diarrhea in the United States from 2010 to 2023. Vet Res 56, 130 (2025). https://doi.org/10.1186/s13567-025-01568-y

Sukalić, Tomislav et al. “Impact of virulence genes and pathotypes of intestinal pathogenic Escherichia coli on gastrointestinal lesions in pre- and post-weaning piglets.” Frontiers in cellular and infection microbiology vol. 15 1704407. 26 Jan. 2026, doi:10.3389/fcimb.2025.1704407

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