Além do diagnóstico: como a INATA transforma dados em conhecimento científico
- Karina Sonalio

- há 15 horas
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Todos os dias, dezenas de amostras chegam ao laboratório INATA vindas de diferentes regiões do Brasil. São pulmões, intestinos, swabs, tecidos e diversos outros materiais enviados por médicos-veterinários e produtores que buscam respostas para os desafios sanitários de suas granjas. Cada diagnóstico entregue representa uma decisão mais assertiva no campo. Mas, para a equipe da INATA, o trabalho não termina quando o laudo é finalizado.
Quando centenas de resultados são analisados em conjunto, eles passam a contar uma história muito maior: revelam mudanças na epidemiologia dos principais patógenos, mostram como a resistência antimicrobiana está evoluindo, identificam agentes emergentes e ajudam a direcionar estratégias mais eficientes para a produção suína.
Em 2026, esse conhecimento ultrapassou os limites do laboratório e foi compartilhado com pesquisadores, médicos-veterinários e especialistas de diferentes países durante os principais eventos científicos da suinocultura mundial. Mais do que apresentar resultados, a equipe levou ao cenário nacional e internacional um retrato atual da realidade sanitária das granjas brasileiras, construído a partir da rotina diagnóstica do laboratório.
A produção científica da INATA em 2026
Ao longo do ano, a equipe de Suínos da INATA apresentou sete trabalhos científicos em três dos principais congressos da suinocultura mundial:
SINSUI 2026 – Porto Alegre (Brasil)
ESPHM 2026 – Florença (Itália)
IPVS 2026 – Ho Chi Minh City (Vietnã)
Por trás de cada estudo apresentado estão meses de análises, discussões técnicas e interpretação de centenas de resultados laboratoriais. Esse esforço coletivo permitiu transformar a rotina diagnóstica em conhecimento científico com aplicação prática para a suinocultura brasileira.
A seguir, destacamos os principais resultados apresentados pela equipe da INATA em cada trabalho, evidenciando como a pesquisa aplicada tem contribuído para aprofundar o conhecimento sobre importantes desafios sanitários da suinocultura.
1. A diarreia neonatal ainda guarda desafios importantes
Entre os trabalhos apresentados no SINSUI, um dos destaques foi um amplo levantamento sobre os rotavírus envolvidos na diarreia neonatal de leitões.
Ao analisarmos 1.601 amostras coletadas entre 2023 e 2025, observamos que 35,23% apresentavam algum tipo de rotavírus. O dado mais interessante foi a elevada frequência do Rotavírus do Grupo C (17,74%), muito próxima da observada para o tradicional Rotavírus do Grupo A (19,05%).
Além disso, o estudo mostrou um aumento gradual na detecção do Rotavírus C ao longo dos anos e identificou diversas coinfecções entre diferentes grupos virais (A, B e C), evidenciando que os surtos de diarreia neonatal podem ser muito mais complexos do que se imaginava.
Esses resultados reforçam uma mensagem importante para a rotina das granjas: limitar a investigação apenas ao Rotavírus A pode levar ao subdiagnóstico de casos e comprometer a adoção das medidas de controle mais adequadas. A inclusão do Rotavírus C nos protocolos diagnósticos representa um passo importante para compreender melhor a epidemiologia das enterites e definir estratégias de prevenção cada vez mais assertivas.

2. Conhecer a bactéria é o primeiro passo para tratá-la corretamente
Outro estudo apresentado pela equipe investigou um dos maiores desafios da medicina veterinária moderna: a resistência aos antimicrobianos. Para isso, foram avaliados 537 isolados de Escherichia coli provenientes de leitões com diarreia e nove fatores de virulência.
A análise revelou que diversos genes responsáveis pela capacidade da bactéria causar doença, como STX2E, STB e LT, foram associados à resistência contra diferentes classes de antimicrobianos, como sulfonamidas, fluoroquinolonas e macrolídeos, respectivamente. Além disso, os resultados também evidenciaram fortes relações entre antibióticos da mesma classe — como as fluoroquinolonas e tetraciclinas — e até mesmo entre classes diferentes, sugerindo a ocorrência de perfis multirresistentes e mecanismos de co-seleção.
Na prática, isso significa que algumas cepas não apenas apresentam maior potencial de causar doença, como também podem ser mais difíceis de controlar quando o tratamento é realizado sem o suporte do diagnóstico laboratorial.

3. Nem todo quadro neurológico é igual
As doenças neurológicas também foram tema de um importante levantamento apresentado no SINSUI, onde avaliamos 242 casos conclusivos de doença neurológica, provenientes de 10 estados brasileiros e do Distrito Federal.
O estudo mostrou que 78,1% dos casos estavam associados a meningoencefalites bacterianas, principalmente causadas por Streptococcus suis e Glaesserella parasuis. Entre os casos de Streptococcus suis, foram identificados 11 sorotipos, principalmente os sorotipos 9 e ½, enquanto Glaesserella parasuis apresentou 20 sorotipos distintos, entre eles 5/12 e 4.
O estudo também evidenciou casos de doença do edema, suspeitas de Teschovírus e salmonelose septicêmica, reforçando a importância do diagnóstico diferencial e da integração entre histopatologia, bacteriologia e biologia molecular.

4. Um retrato atual das doenças respiratórias brasileiras
Durante o ESPHM 2026, realizado na Itália, a equipe apresentou dois estudos que ampliam a compreensão sobre o Complexo Respiratório Suíno no Brasil.
O primeiro revelou um cenário preocupante para a resistência antimicrobiana. Em Pasteurella multocida, 66% dos isolados apresentaram perfil de multirresistência, enquanto em Actinobacillus pleuropneumoniae esse número chegou a 98%.
Além disso, foram observadas mudanças importantes na frequência dos sorotipos circulantes entre 2023 e 2024. Houve aumento dos sorotipos 4 e 5 e redução dos sorotipos 8 e 18. Esses achados demonstram que a epidemiologia desses agentes permanece em constante evolução. Esses resultados mostram que acompanhar continuamente esses patógenos é essencial para orientar programas vacinais e revisar protocolos terapêuticos, principalmente em relação à resistência aos antimicrobianos no Brasil.

O segundo estudo demonstrou como as monitorias em frigoríficos podem fornecer uma visão ampla sobre a saúde respiratória dos rebanhos. Neste trabalho, foram avaliados 668 pulmões provenientes de 75 monitorias realizadas em sete estados brasileiros. As lesões compatíveis com Mycoplasma hyopneumoniae foram observadas em 46,1% dos pulmões, enquanto o vírus Influenza A esteve presente em 42,1%. Em quase 24% dos casos, ambos os agentes ocorreram simultaneamente.
Entre as bactérias isoladas, Pasteurella multocida foi a mais frequente, seguida por Actinobacillus pleuropneumoniae e Actinobacillus suis, reforçando a conclusão de que as doenças respiratórias normalmente envolvem múltiplos agentes e evidenciam a importância de um diagnóstico integrado para orientar medidas de prevenção e controle.

5. A ciência produzida no Brasil ganha espaço no mundo
Parte desses resultados também foi apresentada durante o IPVS 2026, no Vietnã, o principal congresso mundial dedicado à medicina de suínos. E para nós da INATA, levar esses dados ao cenário internacional representa muito mais do que participar de um evento científico. É uma oportunidade de compartilhar a realidade epidemiológica brasileira, trocar experiências com pesquisadores de diferentes países e contribuir para o avanço global do conhecimento em saúde suína.

Entre os trabalhos apresentados no IPVS 2026, a equipe da INATA investigou a relação entre genes de virulência e resistência antimicrobiana em isolados de Streptococcus suis sorotipo 9. O estudo demonstrou que, embora alguns genes de virulência estivessem presentes com frequência, as associações entre eles foram limitadas, indicando que o desenvolvimento da doença depende também de outros fatores como interação com outros patógenos, saúde do hospedeiro e das condições de manejo da granja.
Além disso, as análises demonstraram um cenário preocupante em relação à resistência antimicrobiana, uma vez que vários perfis de multirresistência foram observados. Mais uma vez, esses achados reforçam a importância do monitoramento contínuo da resistência antimicrobiana e do uso racional de antibióticos no Brasil.

Dessa forma, nós da INATA, acreditamos que a ciência ganha ainda mais valor quando transforma informações em conhecimento e conhecimento em decisões. Cada diagnóstico realizado representa uma oportunidade de compreender melhor a dinâmica das doenças, antecipar desafios sanitários e desenvolver soluções que contribuam para uma produção mais eficiente e sustentável. E, os estudos apresentados ao longo de 2026 refletem esse compromisso com a pesquisa aplicada e demonstram como a integração entre diagnóstico, inovação e ciência pode fortalecer a suinocultura brasileira, gerando conhecimento que retorna ao campo e serve de suporte para médicos-veterinários, produtores e toda a cadeia produtiva.

NOTA: os trabalhos científicos discutidos neste artigo estão disponíveis para consulta. Caso tenha interesse em conhecer os estudos na íntegra, entre em contato com a equipe da INATA. Será um prazer compartilhar esse conhecimento com você. Além do diagnóstico: como a INATA transforma dados em conhecimento científico



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