Ceratoconjuntivite infecciosa bovina: quando usar a vacina autógena no controle da doença?

A sazonalidade exerce papel significativo na ocorrência de determinadas doenças nos rebanhos bovinos no Brasil. Alterações climáticas, como o aumento das chuvas, intensificam a umidade no ambiente, criando condições favoráveis para a proliferação de pragas e microrganismos, como moscas e bactérias, por exemplo. Esse cenário eleva ainda mais os desafios enfrentados pelos animais, exigindo maior atenção no manejo sanitário.
Uma doença relevante nesse período é a Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina (CIB), também conhecida como “Pink Eye” (olhos cor de rosa), denominação atribuída à coloração rósea observada nos olhos dos animais acometidos. Essa enfermidade é causada por bactérias do gênero Moraxella spp., que afetam diretamente os olhos e a visão dos bovinos. Trata-se de uma doença altamente contagiosa, transmitida por vetores, com destaque para as moscas. Durante períodos chuvosos, o aumento da umidade e do calor acelera o ciclo de desenvolvimento da mosca, favorecendo sua multiplicação. A espécie Musca domestica, que possui aparelho bucal do tipo lambedor, é considerada o principal vetor responsável pela disseminação da Moraxella spp..
O animal se infecta uma vez que a mosca carreando a bactéria pousa ao redor do olho e a desprende de seu corpo, podendo acometer um ou os dois olhos. O contato direto de um animal sadio com as secreções de animais doentes também é considerado como uma forma de contágio. A doença também pode se iniciar a partir de lesões prévias nos olhos, causadas por acidentes em pastagens altas e sujas ou por objetos pontiagudos ou cortantes. Nesses casos, a bactéria infecta a área lesionada e agrava o quadro clínico. A alta densidade animal nos sistemas intensivos de criação de bovinos é um fator agravante para a transmissão da CIB. Em geral, a CIB acomete animais jovens e com menor frequência os animais adultos, já que estes são capazes de desenvolver imunidade contra a Moraxella spp.. Além das lesões oculares, a CIB compromete o desempenho e o crescimento dos animais jovens, bem como a produção de leite e carne em bovinos adultos, resultando em impactos econômicos expressivos para a pecuária mundial.
O diagnóstico clínico da CIB deve ser realizado logo nos primeiros sinais da doença, a fim de evitar sequelas nos animais e controlar sua disseminação dentro do rebanho. Na fase inicial, os sinais clínicos mais comuns incluem lacrimejamento intenso e fotofobia (sensibilidade à luz), seguidos por secreção ocular purulenta, dor e opacidade da córnea, quando o olho fica com aspecto esbranquiçado. Se não tratada rápida e adequadamente, a doença pode evoluir para úlceras nas córneas, resultando em cegueira parcial ou até mesmo total.
Figura 1. Bezerra com lacrimejamento e fotofobia (foto da esquerda) e bezerra com opacidade córnea (foto da direita).

O diagnóstico laboratorial para confirmação da CIB é realizado por meio da coleta de suabe da secreção ocular (Figura 2) para cultura microbiológica ou teste de reação em cadeia de polimerase (PCR) para detecção das espécies de Moraxella spp.. Por ser uma doença bacteriana, o tratamento se baseia no uso de antimicrobianos que podem ser aplicados pelas vias tópica, ocular ou subconjuntival conforme a gravidade do caso, associado ou não ao uso de anti-inflamatórios.
Figura 2. Demonstração da coleta de suabe da secreção ocular para diagnóstico laboratorial de Moraxella spp..

As vacinas comerciais contra CIB disponíveis no mercado nacional são compostas por cepas inativadas de Moraxella bovis, ou conjugadas com cepas de Moraxella bovoculi e Moraxella bovis. O protocolo vacinal recomendado inclui duas doses na primo-vacinação, com intervalo de 21 a 30 dias entre aplicações, preferencialmente antes do início do período chuvoso. Na região do Brasil Central, onde as chuvas geralmente se iniciam em outubro, a recomendação é iniciar o protocolo em setembro com reforço vacinal em outubro. Esse esquema tem por objetivo fazer com que os animais produzam anticorpos específicos antes do início do período de maior desafio da doença.
Alguns técnicos e produtores de leite têm relatado uma baixa proteção e eficácia limitada utilizando vacinas comerciais contra a Moraxella spp.. Sabe-se que vários fatores podem interferir na resposta vacinal, principalmente o momento da vacinação e o nível de desafio sanitário enfrentado pela propriedade. No entanto, essa limitação pode ser explicada pela existência de uma diversidade genômica e diferenças antigênicas entre as cepas circulantes de Moraxella spp., além da possibilidade de recombinação gênica entre cepas (Loy et al., 2021).
A proteção cruzada entre diferentes cepas de Moraxella spp. é considerada baixa. Isso significa que os anticorpos produzidos contra uma cepa apresentam capacidade reduzida de neutralizar outras variantes, o que ajuda a explicar a eficácia limitada observada em algumas vacinas comerciais. Quando a cepa circulante em um rebanho difere daquela utilizada na formulação vacinal, a imunidade gerada pode ser insuficiente, resultando em falhas na proteção dos animais.
A prevenção da CIB considerando apenas a estratégia vacinal não é suficiente para garantir que o rebanho permaneça livre de infecções por Moraxella spp..
É indispensável implementar medidas integradas de biosseguridade, manejo e monitoramento sanitário. Entre elas, o controle de moscas se destaca como a principal ação preventiva, já que a redução da população contribui diretamente para diminuir a transmissão da CIB. Além disso, o diagnóstico precoce, o isolamento dos animais doentes e o início rápido do tratamento são práticas fundamentais para conter a disseminação da CIB e minimizar seus impactos.
A Inata Global possui técnicos capacitados para realizar a coleta da melhor forma para diagnóstico e isolamento de Moraxella spp., além de fabricar vacinas autógenas específicas para a necessidade de cada propriedade e fase da criação. Entre em contato conosco para obter mais informações!

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Ceratoconjuntivite infecciosa bovina
Referências
Loy, J.D., Hille, M., Maier, G., Clawson, M.L. (2021). Component Causes of Infectious Bovine Keratoconjunctivitis - The Role of Moraxella Species in the Epidemiology of Infectious Bovine Keratoconjunctivitis. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. v.37 (2), p.279-293. doi: https://doi.org/10.3389/fvets.2023.1331767

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