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Bronquite Infecciosa das Galinhas: por que a cepa da sua vacina importa

Foto do escritor: Camila Carvalho
Camila Carvalho
há 12 horas
6 min de leitura

Em 1930, Schalk & Hawn descreveram um surto respiratório em aves nos Estados Unidos (EUA) e concluíram tratar-se de doença viral, já que o agente causador era filtrável e transmissível entre as aves. Batizaram a enfermidade de bronquite infecciosa (BI), sendo este agente o primeiro coronavírus identificado e hoje classificado como Gammacoronavirus, com dezenas de sorotipos e ampla variedade de patótipos. O vírus da BI (IBV) sofre frequentes mutações, o que gera um alto potencial para o surgimento de cepas variantes ou de novos sorotipos, sendo que a prevalência de cada sorotipo varia conforme a região.


A BI é uma doença viral aguda e altamente contagiosa das galinhas, capaz de causar alterações respiratórias, renais e reprodutivas. Em poedeiras é comum observar queda na taxa de eclosão e na produção de ovos, com casca despigmentada e má formação (Imagem). Em frangos de corte a doença leva à redução do ganho de peso, aumento da conversão alimentar, condenações nos abatedouros, além da possibilidade de desenvolver aerossaculite (Imagem) devido a infecção secundária.

Bronquite Infecciosa das Galinhas

Imagem dividida em duas partes ilustrando os efeitos da bronquite infecciosa (BI) em aves: à esquerda, mão enluvada segurando um ovo deformado com casca pálida e despigmentada; à direita, visualização interna de uma ave apresentando aerossaculite com exsudato e bolhas nos sacos aéreos.
Fonte: Arquivo INATA

É uma enfermidade de distribuição mundial que afeta tanto aves jovens quanto adultas. Em aves suscetíveis, os sinais clínicos aparecem de 2 a 3 dias após a infecção. Aves jovens apresentam prostração, redução no consumo de alimento, espirros e ronqueira, podendo haver descarga de muco pelas narinas. A morbidade costuma ser altíssima (chegando a 100%), enquanto a mortalidade varia bastante dependendo da cepa, da idade das aves, do estado imunitário e da presença de infecções secundárias, como E. coli, micoplasma e outros agentes.


As lesões mais comuns são exsudato mucoide e irritação na traqueia e nos seios nasais. Infecções secundárias favorecem complicações como aerossaculite, pericardite e perihepatite. Em cepas nefropatogênicas, os rins apresentam alterações características, com perda de coloração e acúmulo de uratos. Em aves adultas, mesmo sem lesões visíveis na traqueia, pode haver atrofia do oviduto e comprometimento permanente da produção.


O diagnóstico presuntivo baseia-se no histórico do lote, nos sinais clínicos e nas lesões observadas. Já o diagnóstico definitivo requer a detecção de anticorpos (por HI ou ELISA), o isolamento do agente (em ovos embrionados ou cultivo de anéis traqueais) ou a detecção do ácido nucleico viral por RT-PCR, este último considerado um método rápido e custo-efetivo, que também permite a diferenciação dos genótipos virais a partir da análise do gene S1. O isolamento pode ser feito através do pulmão, traqueia, rins, tonsilas cecais, fezes e porção do istimo e do oviduto.


Para entender as diferenças entre as cepas, vale explicar primeiro como elas são classificadas. Desde 2016, o sistema mais usado divide o IBV em genótipos (grandes grupos) e linhagens (subgrupos dentro de cada genótipo), com base na análise filogenética do gene S1, a região mais variável do vírus e a principal responsável por induzir a resposta imune. Nesse sistema, as linhagens de importância mundial são a Massachusetts (GI-1), a variante brasileira (GI-11) e GI-23.


A linhagem Massachusetts foi a primeira a ser identificada, em 1941 nos Estados Unidos, e até hoje é um das mais distribuídas globalmente, em grande parte por ser a base das vacinas vivas mais usadas no mundo, incluindo as cepas H120, H52 e M41. Esta cepa está associada principalmente a quadros respiratórios. A variante brasileira é uma linhagem exclusiva da América do Sul, já detectada desde 1975, mas reconhecida como grupo genético distinto apenas mais recentemente. A cepa inclui problemas respiratórios, infertilidade, queda na produção e qualidade dos ovos, além de distúrbios entéricos, refletindo sua tendência a replicar bem no trato digestivo das aves.


Já a GI-23 é a mais recente chegada ao país. Trata-se de uma linhagem que se acredita ter se originado no Oriente Médio ainda na primeira metade do século XX, circulando de forma pouco detectada por décadas, provavelmente por causar doença mais branda nessa fase inicial. Só emergiu como problema relevante em meados dos anos 1990, em Israel, onde foi descrita como "Variant 2", e a partir daí se espalhou progressivamente por Oriente Médio, Europa, África, Ásia e, mais recentemente, pelas Américas, tendo sido confirmada no Brasil em 2021. Sua marca registrada é a nefropatogenicidade acentuada somada aos sintomas respiratórios típicos da BI, um padrão observado em diferentes países, incluindo queda de postura e piora na qualidade da casca em plantéis afetados. Estudos com isolados brasileiros confirmaram esse tropismo respiratório e renal, com ciliostase acentuada na traqueia e lesões renais em aves experimentalmente infectadas.


No Brasil, estudos mostram que a maior parte das amostras positivas para IBV corresponde a sorotipos não-Massachusetts, evidenciando uma diversidade viral maior do que se imaginava. Levantamentos de campo mais recentes reforçam essa realidade. Um estudo com 432 lotes comerciais de frangos e matrizes de três regiões produtoras do Brasil (sul, centro-oeste e nordeste) encontrou 41,4% dos lotes positivos para o IBV, com a variante brasileira predominando amplamente sobre a cepa vacinal Massachusetts, especialmente no trato digestivo das aves, onde o vírus tende a persistir por mais tempo (Balestrin et al., 2014). Um trabalho mais recente, de 2025, avaliando 100 lotes de frangos de corte em seis estados brasileiros, identificou uma prevalência ainda maior: 91% dos lotes positivos, com circulação simultânea ou isolada das linhagens GI-1, GI-11 e GI-23. O estudo também mostrou que vírus vacinais podem persistir na traqueia das aves por até 32 dias após a aplicação, e que lotes não vacinados apresentaram alta prevalência (70%) da linhagem GI-11, reforçando a importância da vacinação (Salles et al., 2025).


Diante dessa diversidade de linhagens, cepas e da importância de uma proteção bem direcionada, a INATA desenvolveu vacinas vivas específicas para cada uma das principais variantes circulantes no Brasil. A BIG MASS® é formulada com a cepa M41 (GI-1), enquanto a BIG BR® traz a cepa BR1 (GI-11). Ambas são vacinas vivas liofilizadas, produzidas em ovos SPF (livres de patógenos específicos), o que garante um padrão elevado de pureza e segurança biológica. São indicadas para reprodutoras, poedeiras e frangos de corte, podendo ser aplicadas por via ocular, em spray de gota grossa ou pela água de bebida, conforme a idade das aves e a estrutura disponível na granja ou no incubatório.


Dois frascos de vacina veterinária para aves, BIG BR e BIG MASS, sobre mesa, em fundo claro, com rótulos azuis.



Para produtores que buscam proteção mais ampla em um único produto, a INATA também oferece vacinas polivalentes inativadas, como ALEVAC 8®, ALEVAC 9® e MATRIVAC 7®, que combinam as cepas M41 e BR1 de Bronquite Infecciosa com a proteção contra outros agentes de importância avícola. A ALEVAC 8®, indicada para aves de postura, associa a Bronquite Infecciosa à Doença de Newcastle, Pneumovirose Aviária, Síndrome da Queda de Postura (EDS) e Coriza Infecciosa. Já a ALEVAC 9® oferece a mesma cobertura, acrescida de proteção contra a Salmonelose Aviária. Já a MATRIVAC 7®, indicada para matrizes, combina a Bronquite Infecciosa com a Doença de Newcastle, Doença de Gumboro, Pneumovirose Aviária e Reovirose. Ambas vacinas devem ser aplicadas pela via intramuscular, no musculo do peito. A associação dos grupos moleculares M41 e BR1 em um mesmo produto reflete a estratégia discutida anteriormente: como os dois circulam simultaneamente no campo brasileiro, combiná-los na formulação amplia a cobertura vacinal e reduz o risco de falhas de proteção frente a cepas. Bronquite Infecciosa das Galinhas


Três frascos de vacina veterinária para aves, com rótulos ALEVAC 8, ALEVAC 9 e MATRIVAC 7, sobre fundo cinza.

Em relação ao avanço da GI-23 no cenário brasileiro, a linhagem tem sido associada a um aumento no número de condenações em abatedouros, o que torna a vacinação indispensável. As vacinas autógenas, produzidas a partir de isolados de campo, são uma opção viável para poedeiras e matrizes. Por serem obrigatoriamente inativadas, elas exigem aplicação injetável e tempo para o desenvolvimento da resposta imune. Esse cenário reforça a importância de monitorar continuamente os genótipos circulantes e adaptar a estratégia vacinal à medida que o cenário sanitário evolui.


Mulher sorrindo ao ar livre, com camiseta azul da INATA e bandeira do Brasil, em frente a árvores e prédio.
CAMILA CARVALHO Coordenadora Técnica camilacarvalho@inata.global

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Referências

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